PÁGINAS

sexta-feira, dezembro 16, 2011

Sucessivos erros.


Como xiita numa guerra santa
Tentando impor a sua crença
Eu quis lhe impor o que eu sentia

Como jornalista em busca da verdade
Brigando por audiência sem qualidade
Sua privacidade eu invadia

Como um soldado que durante guerra
Reza pela paz na face da terra
Eu disparei o primeiro tiro

Como político depois de eleito
Que foge do povo a qualquer preço
Não cumpri o que prometi

Você declarou estado de sítio...
Perdi meus direitos de cidadão
Senti ciúmes sem razão
Disse sim quando era pra dizer não
Confessei minha traição

E como um advogado diante do júri
Mentindo para absorver o réu
Protestando a acusação
Representando um papel
Pra não te perder
Te enganei

Nilo dos Anjos

segunda-feira, dezembro 12, 2011

Beleza rara

Beleza rara 
Metade cara de uma outra vulgar 
Metade solução de um outro problema 
Das duas a única que vale a pena 
Quero agora suas asas cortar 
Pois sou invejoso
Não vou te negar 
Por causa da outra beleza vulgar 
Fui contaminado sem ter como curar 
Por isso lhe prendo pra te admirar 
Em uma gaiola em cima de um altar 
Mereço um castigo por não compartilhar 
A sua beleza para outros olhar 
Mas não tenho medo de alguém me matar 
O que mais me apavora é cego ficar 
Beleza rara... Vou sempre velar 
Eu que lhe prendo quero me libertar 
De seu cândido encanto furtivo ao olhar 
Desses olhares vulgares que não vem da alma 
Estou cego de tanto vê-la 
E acabo de me curar. 

® Nilo dos Anjos 19/02/02

Beleza

A beleza entra em choque 
Com sua falta de destreza 
Em lidar com seres de outra natureza. 

Por estar sentada tal qual alteza 
Em seu trono ilibado sem realeza,
Vai cavando sua cova 
Sem se preocupar a sua volta 
Como uma rainha morta 
Sobre a fria mesa. 

Esbraveja com soberba 
Que ataca aos ouvidos 
Daqueles que por serem diferentes, aos seus olhos, 
De seu mundo são banidos. 

Com irônicos risos, 
Como se fosse preciso, 
Arranca os olhos da alma 
E não enxerga mais nada 
Além do espelho... 
Morrerás como narciso! 

quinta-feira, dezembro 08, 2011

A MULHER DO METRÔ




Ela quase não tem bunda, 
Mas é desbundante. 
Não tem peito grande, 
Mas não se deixa despeitar.
Ela não tem charme, 
Mas é impossível não notá-la 
E todos se calam quando ela fala.
Com seu passo miúdo, ela segue adiante. 
E não tem medo de sentir-se triunfante. 
Destas que sabe o que quer sem ser arrogante 
Tem poucos amigos, mas muito importantes. 
 Já leu Dom Quixote de Miguel de Cervantes 
E na divina comédia, ela é o inferno de Dante. 
Seu nome eu não sei, mas juro que pediria 
No momento certo em outro dia. 
Dizem que ela tem fama de só transar com quem ama 
E todos desejam leva-la pra cama. 
Ela foi embora e nem olhou pra trás.
Desceu na estação de Santana. Satanás !
A mulher do metrô que fez fama.
Amanhã ela volta, mas pra minha revolta
Parece aguardar alguém... que por seu nome lhe chama.

Nilo dos Anjos

quarta-feira, novembro 09, 2011

Apenas o vestido

E se você pensar em voltar 
Venha de azul 
E não esqueça ao entrar 
Do brilho nos olhos 

Venha de salto alto 
E apenas o vestido sobreo corpo 
Na boca um baton vermelho salmão 
E a língua úmida de desejo 

Entre como o vento. 
Seja o vento! 
E ao mesmo tempo... 
O tempo! 
Não o deixe passar! 
Feche a porta e num beijo 
Faça-o parar!




Nilo dos Anjos

Nada



No meio do nada 
Alguém chega 
Alguém vai 
Alguém vaga 

Ningúem sabe nada 
Onde inicia? 
Pra onde vai? 
Quando acaba? 

Há um viajante 
Um cavaleiro errante 
Em busca de sua amada 
Há um estrangeiro 
Que como o cavaleiro 
Caiu numa cilada. 

Há o mundo inteiro 
preso num banheiro 
e a única saída é a privada. 

Ninguém sabe nada 
Ninguém sabe nada 
E num belo dia 
tudo acaba.


Nilo dos Anjos

Maria Fumaça





O mundo pára 
A respiração aumenta 
Meus olhos miram outros olhos 
Que miram os meus 
Um instante... 
Coração dispara 
O peito arrebenta. 
Mais uma vez a certeza 
Que entre tantas certezas se apresenta 
Prazer em conhecer e em reconhecer 
Esta hora em outro dia, em outro momento o mesmo éden, 
Outra pessoa, outro desvio de caminho, dois mundos sozinhos... 
Que se cruzam e no encontro se perdem 
Infinito ciclo majestoso 
Infinitos encontros perdidos onde 
Paixões vão e vêm 
E quem perdeu o bonde do amor 
Diverte-se agora neste trem. 
Maria fumaça que partiu da estação sem graça 
Rumo a ilusão...amém 


Nilo dos Anjos